Especialistas descrevem os números de saúde apresentados como uma vitória do presidente Gustavo Petro como "falsos".

Em seu discurso de 27 de agosto, o presidente Gustavo Petro afirmou que a Colômbia vive um "declínio histórico" em indicadores de saúde pública, como a mortalidade materna e infantil. Por meio de gráficos em tela, o presidente apresentou o que definiu como resultados concretos das transformações que seu governo implementou no sistema de saúde. Enquanto o governo buscava exibir seus triunfos à nação, a reação de especialistas no assunto tem sido diametralmente oposta: o que o chefe de Estado descreveu como um feito, vários especialistas descrevem como uma mistura de triunfalismo, manipulação de números e ignorância sobre como a saúde pública realmente funciona.

Presidente Gustavo Petro durante seu discurso em 27 de agosto. Foto: Presidência
Um dos dados que mais gerou debate foi a mortalidade materna, indicador que Petro apresentou como exemplo da suposta "redução histórica". A observadora cidadã e líder da saúde Hannah Escobar refutou categoricamente a narrativa presidencial. "Em 2019, a taxa de mortalidade materna era de 45,8. Em 2020, subiu para 51,5 e, com a pandemia, disparou para 97,5 em 2021, um fenômeno global que não pode ser usado para comparação. E agora, o que estão fazendo? Apresentam os números de Petro (53,9 em 2023 e 48,9 em 2024) como se fossem um feito, quando são piores que os de Duque antes da pandemia. E para completar a enganação, manipulam a escala do gráfico para fazer parecer que melhoraram", destacou.
Segundo Escobar, o que está acontecendo é que o governo está aproveitando um período atípico — os anos da pandemia — para se apresentar como o arquiteto de uma melhora que, na prática, é apenas um retorno aos níveis pré-crise sanitária global. "A mortalidade materna não pode ser disfarçada com caricaturas", concluiu.

A altura das barras usadas para representar os dados graficamente foi um dos pontos questionados pelos especialistas. Foto: Hannah Escobar
Argumento semelhante foi apresentado por Andrés Vecino, pesquisador de saúde pública da Universidade Johns Hopkins, que concordou que os números do presidente não podem ser interpretados da forma como ele os atribui. "Dizer que há uma redução 'histórica' é enganoso. O que eles mostram é apenas um retorno aos mesmos níveis de antes, com dados preliminares e incompletos", afirmou. Para Vecino, mesmo o suposto "declínio" em 2024 não pode ser considerado consolidado, pois se trata de uma informação parcial e ainda não oficialmente validada.
A crítica mais contundente veio do ex-ministro da Saúde e economista Alejandro Gaviria, que ironizou a apresentação de Petro: "O presidente deu uma palestra inesquecível: 'Mentindo com Estatísticas, Nível Avançado'. Módulo 1: Manipulando Gráficos para Confundir. Módulo 2: Tirando Conclusões Definitivas com um Único Ponto de Dados Preliminar. Módulo 3: Selecionando Dados para Enganar os Incautos. Módulo 4: Inferências Causais Impossíveis... com Apenas Cinco Pontos de Dados." Para Gaviria, o que aconteceu não foi apenas um erro técnico, mas um ato deliberado de manipulação que beira o "ridículo e o ultrajante".
Para todos os especialistas, os indicadores que o presidente Petro apregoa como conquistas de seu governo são, na realidade, o resultado de tendências de longo prazo que se desenvolveram muito antes de sua gestão, ou simplesmente um retorno à normalidade após o impacto da pandemia. O que se nota imediatamente, e com o qual os especialistas concordam, é a deterioração do acesso aos serviços de saúde: mais tutelas judiciais, filas maiores nos hospitais, mais barreiras para obter medicamentos e uma crise financeira para o EPS que ameaça arrastar todo o sistema.

Assim deve ficar o gráfico apresentado pelo presidente Petro, segundo especialistas. Foto: Hannah Escobar
Para epidemiologistas e pesquisadores, um dos pontos-chave dessa discussão é o tempo que leva para que mudanças regulatórias se reflitam nos resultados de saúde. Para Ramón Abel Castaño, médico e doutor em Saúde Pública e Políticas, os efeitos de reformas profundas nunca são imediatos. "Alguns indicadores, como a vacinação contra o HPV, podem levar décadas para mostrar seus resultados. A expectativa de vida ou a mortalidade geral mudam em questão de anos, e a mortalidade infantil e materna pode mudar ao longo de um período de três anos, mas não da noite para o dia", explicou.
Em contraste, o que pode ser observado imediatamente, acrescentou, são os efeitos da crise financeira, à medida que começamos a ver fechamentos de serviços, negação de atendimento ou um aumento nas reclamações e reivindicações. "Este governo só piorou o acesso aos serviços de saúde. Isso fica evidente no aumento de ações judiciais, reclamações e no aumento dos gastos diretos das famílias", disse ele.
A conclusão de Castaño é que é impossível que mudanças atribuíveis a decretos sejam observadas em apenas dois anos de governo (visto que a reforma da saúde não avançou). E que, de qualquer forma, esses decretos nem sequer foram totalmente implementados. O paradoxo, ele insiste, é que o que está deteriorando rapidamente o atendimento são as barreiras de acesso que se multiplicaram após a crise do EPS e o subfinanciamento do sistema.
O acadêmico e pesquisador da área da saúde Herman Redondo Gómez concorda com essa análise. Segundo ele, atribuir conquistas imediatas a uma reforma que está apenas começando é metodologicamente insustentável. "É prematuro atribuir mudanças a algo que não foi aprovado. Se as regulamentações forem implementadas, os primeiros resultados serão vistos em 2026 ou 2027", disse ele.
Para Redondo, os números apresentados hoje pelo governo são, na verdade, a expressão da inércia de um sistema que funcionava com dificuldades, mas que não pode mudar de rumo em questão de meses. Em vez disso, o que as pessoas vivenciam em primeira mão hoje são os problemas cotidianos: "filas para remédios, cirurgias canceladas, fechamento de serviços e mais processos judiciais".
Jornalista de Meio Ambiente e Saúde
eltiempo